4 de nov de 2008

Um Clube

Rubem Braga
21 de setembro de 1939
Meu rumoroso amigo Jorge Amado fundou no Rio, nas páginas de Dom Casmurro, um clube denominado Clube dos Chatos. Elementos de conceitos nos meios literários cariocas integram sua diretoria. Não direi aqui os nomes porque não cultivo o mesmo esporte perigoso de Jorge, que é comprar inimigos. Jorge pode fazer isso, porque ele sabe também comprar amigos: é um desses rapazes em que as pessoas sensíveis reconhecem “uma simpatia irradiante”. Mas não sou Jorge Amado, nem mesmo baiano, sou capixaba, o que é uma fórmula geográfica de não ser coisa alguma. Sem essa faculdade de comprar amigos por atacado não cometerei a imprudência de comprar inimigos em grosso. Amigos e inimigos eu os compro e vendo lentamente, a retalho: faço negócio miúdo. Minha cara não ajuda o aliciamento em massa de afetos. Isso não me impede de ser mediocremente simpático. Eu me consolo pensando que há homens decididamente antipáticos, como o poeta Carlos Drummond de Andrade, que nem por isso deixam de ser excelentes e amoráveis.

Jamais fundaria um clube como esse que fundou no Rio. Ninguém ama ser chato.
É exato que há alguns chatos com a resignada consciência de que o são: mas nem esses mesmos gostam que se faça publicidade em torno disso. Entre os catalogados na lista de Jorge Amado pode ser que haja muitas injustiças. Há chatos absolutos e chatos relativos. Os piores de todos devem ser os “autochatos”. São homens que se chateiam até a si mesmos. Esses não podem estar nunca sozinhos. Evitam a própria presença e por isso são mais ferozes, porque estão sempre funcionando junto a alguma vítima.

Quanto aos chatos propriamente ditos, sua variedade é enorme. Chatos escritos, chatos falados, chatos mudos. Chatos em extensão e chatos em intensidade. Chatos do cotidiano e chatos do sobrenatural. Chatos irônicos e chatos patéticos. Os mais terríveis devem ser os chamados chatos neutros, incolores, insípidos. Sou dos que admitem a superioridade da mulher sobre o homem, e creio que também nesse terreno elas brilham. Mais pacientes, minuciosas e teimosas, insistentes e sutis, as mulheres apuram suas qualidades de chateação a um ponto supremo, transpondo a fronteira do gênio.

Nessa altura dos acontecimentos seria talvez útil formular conselhos. Como não ser chateados? Como prevenir os chatos? Como reagir em caso de ataque? Confesso que não me julgo autoridade para firmar fórmulas. Minha técnica é muito primária, embora às vezes dê bom resultado. Uso a cara de mamão. A cara de mamão tem eficiência apenas nos casos benignos, devo reconhecer. Trata-se de dar à cara um ar de mamão. Não sei explicar bem como se consegue isso. O leitor interessado pode comprar um mamão. Conservando-o em sua frente, junto de um espelho, procure fazer com que sua cara fique parecida com um mamão. A cara de mamão não comporta nenhuma ferocidade, mas também não é passiva. É fechada ser tensa e sombria sem ser triste. Não deve ser excessivamente mole, mas também sem traço de dureza. O remédio é fazer tentativas como aconselhei acima. Eu por mim tenho uma grande facilidade em organizar uma cara de mamão e conservá-la durante um período de tempo bastante longo. outros usam a cara de mormaço. Alguns atingem a perfeição de conseguir compor uma "cara de mamão em dia de mormaço"; mas são raros.
Essa defesa equivale de certo modo a um contra-ataque. É o contra-ataque mudo, eficaz apenas em certos casos. Há também o contra-ataque falado. Tenho observado que um grande número de chatos é muito sensível à chateação alheia. A estes devemos contar sem graça. Mesmo que tenha sempre a mesma anedota. Deve ser uma anedota longa e alguma graça deve ser contada de maneira a que não se tenha nenhuma. se no princípio da história o antagonista observar, sen educação, que já conhece, devemos fazer que não ouvimos. se ele insistir muito, devemos dizer que "esta é diferente". Finda a anedota, se o efeito não foi muito satisfatório, podemos repeti-la lentamente, encompridando-a um pouco à custa de algum detalhes. O essencial é não deixar o chato atacante abrir a boca. Naturalmente isso só se aplica ao chato falante. Quanto ao chato mudo não creio que exista nenhum remédio eficaz, a não ser a fuga ou o homicídio.
Enfim, isto aqui está se tornando muito longo, e possivelmente estou praticando o mal que pretendo combater. Vou terminar aconselhando a todos a fazerem também a cura íntima. Procuraremos não achar muito chato os chatos. Olhemos a todos com boa vontade e espírito cristão. Desconfiemos dos que acham todo mundo chato. Esses são os "pseudos-antichatos", e tudo o que conseguem é tornar este mundo mais chato do que ele realmente é.