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Resistir é preciso

Por: Bruno Figueiredo

Escrever sobre personagens que marcaram o país sem cair em clichês, jargões ou palavras aparentemente desgastadas como o título desta resenha é quase como falar do Brasil sem citar o futebol.



Fernando Paulo Nagle Gabeira é um destes personagens da vida real que insistem em ficar com o povo. Jornalista, ex-guerrilheiro, fundador do Partido Verde, fotógrafo, escritor, deputado federal e agora candidato a prefeito no Rio de Janeiro. Este mineiro de Juiz de Fora mostra que com 67 anos ainda tem o que fazer pelo Brasil.



O livro O que é isso Companheiro é mais que um best-seller é o retrato de uma época turva pela qual a nossa sociedade passou narrados por quem “viveu na carne” o processo ditatorial brasileiro e descrito de forma atraente sobre momentos não tão atraentes assim.



O livro começa com o nome de uma rua, a Irarrazabal, que Gabeira e seus amigos jamais conseguiram pronunciar corretamente. Para quem viveu essa época difícil mesmo era compreender o que se passava no país. O golpe, revolução para alguns, a ausência de resistência (será?), a apatia civil, tudo isso atormentou a mente dos brasileiros que viam 1964 como um ano que marcaria todos.




O mundo passava por um momento de supressão das liberdades, direito individuais e coletivos. Chile, Argentina entre outros experimentavam ou reviviam a castração política. Aqui grupos guerrilheiros de esquerda como o ALN, VPR, Ala Vermelha – dissidência do PC do B, MR-8 (grupo este em que Gabeira fazia parte), tentavam de diversas formas derrubar a ditadura.



As dificuldades de arregimentar novos integrantes para a organização, os infindáveis discursos bacharelescos e os choque internos provocados por correntes ideológicas divergentes foram um dos fatores apontados por Gabeira no livro para a não realização da verdadeira revolução.



- Rogers que merda é essa?



Com um enredo linear e fazendo, em alguns momentos uso da análise psicológica dos envolvidos na trama o livro transporta o leitor para uma ação quase cinematográfica que foi o seqüestro do embaixador dos Estados Unidos revelando o que realmente isto contribuiu para os movimentos de esquerda. Um momento importante para a história “e o narrador sempre que pensa no episódio, só se lembra de uma frase. A frase de Richard Nixon para William Rogers, ao ser informado, de madrugada, que o Embaixador americano fora seqüestrado numa rua da Zona Sul do Rio de Janeiro: - Rogers que merda é essa?” Na verdade, essa frase é o príncipio para lembrar os momento que antecederam ao seqüestro propriamente dito.



A vida nos porões da ditadura é posta sempre às claras. A humilhação, a tortura psicológica e física, a saudade do mar, enfim saudade da liberdade é colocada de forma verdadeira e se existe algum eufemismo ou omissão de algum detalhe deve-se a habilidade e talento do autor do que a tentativa simples de mascarar ou negar os fatos.



A “geladeira” em que se viu obrigado a conviver, as quedas de companheiros e de “aparelhos” e a sua própria nas garras dos militares são descritas e analisadas por quem viu e sentiu o golpe militar de 1964. Fora exilado e retornara com a anistia a tempo de ver a luta pelas Diretas. Com tantos episódios marcantes em sua vida alguém poderia dizer: Gabeira, por que não descansa e fica com a família e com os amigos? Esqueça o Brasil e suas tormentas, volte para Suécia e vá tomar aquele café em meio ao frio escaldante nas ruas de Estocolmo. Uma das possíveis respostas seria: "Resistir é preciso".


O que é isso companheiro? Gabeira, Fernando – 21ª Ed. – Rio de Janeiro: Codecri, 1980 (Coleção Edições do Pasquim; v. 66) 190 páginas. R$ 15,00.

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