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PALAVRÃO NÃO É PORNOGRAFIA

Texto publicado originalmente no O PASQUIM em dezembro de 1969 nº 25
Como o Texto é dividido em 5 partes vou (ou melhor iria pôr) pôr em 5 post devido a extensão do artigo de Rubem Fonseca.

I – PORNOGRAFIA?

Pornografia, do grego pornographos (porne, prostituta + graphein, escrita) significava, originalmente a descrição de prostitutas e da prostituição em relação à higiene pública. Hoje, segundo os dicionários pornografia é o caráter obsceno de uma publicação ou, ou de uma coleção de pinturas.

Quando se diz que alguma coisa é pornográfica é porque essa coisa descreve ou representa: a) funções sexuais ou funções excretoras; b) mediante, em certos casos, a utilização de nomes vulgares comumente conhecidos como palavrões. O termo pornografia, quando utilizado aqui, terá sempre essa acepção.

Freud, no prefácio do livro Scatologie Rites, de Bourke, diz que é comum serem as pessoas afetadas por qualquer coisa que as relembre inequivocadamente da natureza animal do homem... Eles escondem suas funções sexuais e excretoras dos seus semelhantes apesar de cada um ser cônscio de sua existência nos outros. Montaigne dizia que o homem é o único animal cuja nudez ofende os que estão em sua companhia e o único que em seus atos naturais se esconde de seus semelhantes. Todas as línguas existentes (e o que ocorre na palavra oral e escrita ocorre também em qualquer forma de comunicação social, como na pintura e no desenho) se referem às funções sexuais e excretoras pelo menos de três maneiras diferentes: a) vulgar; b) refinada ou educada; e c) científica. Um homem e uma mulher têm relações sexuais. Em linguagem vulgar isso seria denominado f... Na educada: dormir com, ir para a cama com ou relações sexuais. Na científica: conjunção carnal (jargão jurídico) ou coito, cópula, etc. Todas essas palavras e vocábulos querem dizer a mesma coisa e, no entanto as pessoas só ficam chocadas com uma delas.
O científico e o pesquisador também são influenciados pelo tabu. Ao definir conjunção carnal o jurista tende a fazê-lo em latim: introduction penis intravas.
Os filólogos se propõem a estudar todas as palavras existentes na língua; mas os livros de filologia não trazem as origens (muitos vêm do latim) de um palavrão sequer. Nomes feios são freqüentemente omitidos dos livros e relatórios não só de filologia, mas também de folclore, etnografia, lingüística e até mesmo dos livros sobre pornografia e obscenidade.
De onde vem esse medo da palavra? Malinowski, em seus estudos e pesquisas da vida sexual dos habitantes da Ilha Trobiand, mostrou as restrições sobre a palavra em razão do tabu contra o incesto. Descobriu que não era permitido ao irmão ou irmã falar de amor e sexo na presença um de outro, ou brincar um com o outro, ou viver na mesma casa quando tivessem crescido. Assim, nossos ancestrais, decididos a proteger a família contra as tendências destrutivas (socialmente falando) do incesto, criaram restrições especiais que continuam sendo aplicadas e seguidas quando os objetivos não são mais os mesmos.
Um homem de Caffre, diz Frazer (Golden Bough), não pode mencionar o nome da sogra. Sua esposa sofre proibições mais rigorosas: não pode pronunciar, nem mesmo mentalmente, os nomes do sogro e de todos os parentes de seu marido na linha ascendente, e sempre que a sílaba tônica de qualquer desses nomes ocorre em outra palavra, ela deve evitá-la substituindo-a por outro termo, ou colocando uma sílaba diferente em seu lugar.
Essas restrições de sociedades primitivas não diferem em nada das limitações que as sociedades civilizadas infligem aos seus membros. Hoje, como ontem, na choça ou no arranha-céu, o que perturba e alarma o homem, como disse Epicteto, não são as coisas, mas suas opiniões e fantasias a respeito das coisas.
As crianças são severamente treinadas a não dizer nomes feios, não por motivos de ordem estética ou pedagógica, mas pelo medo que seus pais têm dessas palavras e pela necessidade que eles têm de manter sinais interditos em sua estrutura de comunicações.
A maneira pela qual o homem moderno emprega as palavras obscena, ao mesmo tempo em que evidencia o preconceito antibiológico de sua cultura, tende a reforçar e recriar o preconceito existente, numa espécie de círculo vicioso (Hipótese Sapir Whorff-Sagarin). Cassier disse que:
“o homem vive num universo simbólico. Linguagem, mito, arte e religião são partes desse universo, são as variadas linhas que tecem a rede simbólica, a rede entrançada da experiência humana. O homem não pode mais confrontar a realidade imediatamente; ele não pode vê-la, como ela é, face a face”

Quanto mais restrições são criadas contras as palavras, mas tendem elas, porém, a ser usadas catarticamente ou magicamente pelas pessoas. É um fato conhecido que, durante a guerra, os combatentes, cercados de restrições e sob prolongada tensão, usam habitualmente linguajar pornográfico, o que os alivia grandemente das pressões que sofrem. Também as mulheres que servem nas forças armadas não ficam atrás da utilização desse mecanismo (ver Pornography and the Law, de Eberhard e Phyllis Kronhausen).
Não apenas em condições especiais de extrema tensão, como a guerra, isso pode ser observado. Nos núcleos urbano-industriais de alta concentração demográfica o palavrão é utilizado, por homens e mulheres independentemente de condição social, como distensor.
Em 1884, o neurologista francês Gilles de La Tourette descreveu um comportamento individual patológico que consiste em gritar obscenidades a todo instante. O praguejar pornográfico é acompanhado de um tique muscular, de origem neurótica. Esse conjunto de sintomas recebeu o nome de
síndromes de La Tourette. Até hoje as causas dessa síndrome não foram adequadamente esclarecidas, tanto que não existe uma cura definitiva. Será uma reação contra a rigidez intolerável da estrutura tabuística? O método recente de cura adotado pelo psicólogo americano D. F. Clark comprova, talvez essa afirmativa. O que fazer com o paciente que, rompendo suas insuportáveis inibições verbais tabuísticas verbais, é levado ao extremo oposto, a automatizar compulsivamente essa liberação? Clark faz o paciente repetir as obscenidades o mais alto e o mais rápido possível, até a exaustão. Imaginem essa cena, passada num consultório médico, idêntica a um trecho da prosa delirante de Burroughs: o paciente tem, amarrado no corpo, eletrodos, ligados a uma máquina, cujo funcionamento é sincronizado com um metrônomo. Esse metrônomo controla a velocidade em que os palavrões devem ser gritados (até duzentos por minutos). No caso de o paciente não gritar as obscenidades com a velocidade necessária, os choques elétricos obrigam-no a manter o ritmo. Esse tratamento que mais parece (inclusive no propósito) um dos métodos utilizados pelo Dr. Benway em Naked Lunch, tem como objetivo criar no paciente; quer dizer, por não suportar, por falta de alívios temporários, a inibição que sofre, determinado individuou estoura, sendo levado a um tipo de comportamento anti-social que exige a implantação de um novo invólucro inibitório. Serão as inibições necessárias ao equilibrium individual? É claro que isso parece ainda mais coisa do Dr. Benway. Uma dedução é certa, porém: as inibições sem possibilidades de desopressão podem causar males sérios à saúde psíquicas dos indivíduos.
Por uma questão de higiene mental, portanto, é imprescindível que estes caminhos de comunicação, de alívio vicário e de redução de tensão não sejam totalmente fechados por atitudes moralísticas e sensoriais por parte da sociedade. Os
Kronhausens são de opiniões que uma sábia organização social deveria encorajar tão inofensivas expressões de idéias-tabus, preferindo-as às únicas alternativas: doença mental ou comportamental violento, prejudiciais ao indivíduo e à sociedade como um todo. Outro perigo na repressão de linguagem pornográfica é aquela que tende a perpetuar a censura. O conceito de que algumas palavras são tão deletérias e prejudiciais a ponto de não podem ser proferidas ou impressas é usado em todas as tentativas para impedir a liberdade de expressão, não somente de palavras, mas também de idéias.
- SEMÂNTICA DO PALAVRÃO
O significado das palavras é um conceito que abrange: 1) pensamentos; 2) sinais; e 3) designata. Designatum significa o atributo não lingüístico que é associado, em pensamento, com o sinal. Sinal é qualquer estímulo físico dos sentidos, usado em comunicação, como palavras pronunciadas ou escritas, ou gestos, etc. Designatum é um termo proposto por Collin Cherry, enquanto que a natureza triádica do conceito do significado das palavras é de origem difícil de ser estabelecida. Aqui cabe um parênteses um pouco longo:
Charles Pierce talvez tenha sido o primeiro autor a importante a sugerir esse aspecto tríplice. Ferdinand de Sassurre, o famoso lingüista suíço, propôs a trindade: nome, definição, imagem, possivelmente entre 1901 a 1913, nos cursos de lingüística que dava na Universidade de Genebra. (Seu livro Cours de Linguistique Génerale, foi publicado em 1992, postumamente, com base nos apontamentos dos seus alunos). Já os estudos de Pierce, que era matemático e filósofo, foram publicados, entre 1867 a 1883. É possível que Sausurre, em Genebra, não tomasse conhecimento do Pierce publicava em Boston. Certamente ambos conheciam as idéias de Platão sobre a matéria.
Os problemas de semântica ocorrem tanto em relação à rose da
Gertrude Stein quanto à merde do General Cambronne. Quando uma pessoa se comunica com outra, ela não transmite o seu pensamento. Ela transmite sinais: auditivos, visuais, táteis, olfativos e gustativos (em ordem decrescente). Esses (ou palavras, já que aqui estamos tratando de palavras) têm vários “desígnios”, que podem ser verificados com mais exatidão através da observação cuidadosa da fala em conjunção com comportamento e as relações psicológicas. Um dos vocábulos mais ofensivos da língua é f.da.p. e no entanto ele está difundido o seu uso como demonstrativo de admiração por pessoas capazes de enfrentar e solucionar situações difíceis, pela inteligência ou pela agressividade. Assim, se alguém diz “fulano é um f.da p.”, ele pode estar querendo ofender o fulano mas pode estar também querendo elogiá-lo por alguma ação inteligente ou decisiva. C, é uma das palavras mais pornográficas da língua (no Brasil) pelo seu Designatum abrangendo excreção e perversão sexual no entanto, ela pode ser sinônimo de coragem, uma das palavras mais “nobres” da língua. “Ele tem C.” pode significar ele tem coragem. Isso nos leva evidentemente a um outro ângulo, além dos limites semânticos, sintéticos e semióticos do problema. O homem vive inventando eufemismo para usar em lugar dos nomes proibidos. Assim pênis, entre outras, usa membro, ou órgão; para a genitália, a palavra vergonha, ou partes. As mães de crianças de berço chamam as fezes de número dois, etc. Mas, quando se quer dar à palavra uma força maior, são deixados de lado os eufemismo e usados os próprios nomes proibidos, não apenas como sinônimo, mas como substitutos mais fortes de palavras já poderosas.
II – LINGUAGEM E PENSAMENTO E LINGUAGEM E CONDIÇÃO SOCIAL. CONTEXTO LINGUÍSTICO E CONTEXTO NÃO-LINGUÍSTICO. EFEITO NEBULIZAÇÃO.

As palavras são sinais, e, como todos os sinais, indicam alguma coisa, ao contrário dos símbolos que tomam o lugar da coisa. Santo Agostinho, porém, dizia que as palavras não são apenas sinais, pois todos os sinais são também coisas, o que não é uma coisa não existe. Para ele existem duas categorias de sinais: os naturais (fumaça indicando fogo; a pegada na floresta indicando um animal, etc.) que “constituem um vasto simbolismo ou linguagem pela qual Deus nos informa do seu plano”; e os sinais convencionais, “aqueles que os seres humanos trocam mutuamente com o propósito de mostrar os sentimentos de sua mente, suas percepções ou seus pensamentos”.
Não existe palavra alguma cujo significado possa ser estabelecido de maneira absolutamente exata e definitiva. Os estudiosos dos problemas de linguagem sabem que uma “multiplicidade infinita de causas” (Ulmann) contribui para criar constantemente mudanças de significado para as palavras. Por outro lado, esse significado depende do contexto em que a palavra se acha, seja ele verbal (lingüístico) ou de situação (não-lingüístico). Rosetti chegou a dizer que “le mot n’est que par le contexte et n’est rien par lui même”.
A única possibilidade da tese do contexto ser desprezada seria mediante a utlização da matemática como meio de comunicação, “por ser livre de erros, obscuridade, ofuscação”. Se os símbolos de matemáticas não tem universalidade para expressar todo de conceito, então talvez seja necessário, como quer
Leibnitz, construir uma “característica universal”, que torne possível um cálculo simbólico para o desempenho de todas as operações do pensamento. Essa concepção parece contar o princípio e a motivação dos vários esquemas logísticas que acompanham o moderno desenvolvimento da matemática simbólica ou lógica, de Boole e Venn a Peano, Courat, Russell e whitehead. (Ver Language, in Sintopycon).
A maior parte dos vocábulos de gíria utilizados pelos jovens da classe média e superior tem sua origem nas favelas, nos grupos marginalizados jurídicos-socialmente (criminosos, contraventores, prostitutas etc.). Lentamente extravasam do ambiente restrito em que circulam, surgem nas letras das músicas populares, nos programas de televisão, na conversa dos jovens burgueses, nos livros, nos dicionários e finalmente na conversa dos velhos burgueses. A isso podemos denominar efeito nebulização, em que ocorre uma permeabilização ascendente do vocabulário das classes superiores. Grande inferiores nas classes inferiores. Tal resulta, não custa repetir, da liberdade de pensamente e verbalização dessas pessoas, que, por ignorarem os vocábulos consagrados, não estão por eles condicionado; e que, ainda em decorrência dessa falta de erudição, necessitam inventar termos para se comunicar.
Ao mudarem de contexto, porém, essas palavras sofrem modificações, de maior ou menor grau, no seu significado.
Estudos com crianças e adultos mostram que os pertencentes aos grupos sociais inferiores têm vocabulário menor que o das classes mais elevadas. Esse resultado, todavia, decorre da circunstância de terem sido utilizados, nesses testes, palavras cristalizadas e prestigiadas nos dicionários e que são, evidentemente, mais facilmente identificadas e conceitualizadas pelos grupos das classes média e alta. Não se pense contudo que as classes inferiores, principalmente as urbanas, têm um vocabulário real reduzido. Os dicionários, por exemplo, em sua maioria, não consignam um único sinônimo para palavra comida (alimento); o linguajar popular, porém, tem para essa palavra, unicamente com essa acepção, dezenas de sinônimos.
Por não terem sido tão rigorosamente treinadas, educadas ou condicionadas a manipular, temer ou interditar as palavras existentes, as pessoas das classes inferiores encaram as palavras (inclusive as obscenas) de maneira construtivas ao contrário da posição conservadora assumida pelos grupos de condição econômica mais elevada.

III – LITERATURA PORNOGRÁFICA
A maioria dos livros pornográficos (é preciso não confundi-los com aqueles inadequadamente assim definidos) se caracteriza por uma série sucessiva de cenas eróticas, cujo objetivo é estimular psicologicamente o leitor funcionando como uma espécie de afrodisíaco retórico. São evitados todos os elementos que possam distrair o leitor do envolvimento fantasioso a que ele é submetido (A pornografia de horror, todavia, não se inclui nesta chave). A análise desses livros mostra uma grande simplicidade estrutural. Como são histórias de enredo circunscrito às transações eróticas dos personagens, as tramas tendem a ser basicamente idêntica em todos eles.
Existem três tipos de literatura pornográfica:
a) A literatura afrodisíaca desodorizada em que as situações potencialmente repugnantes são evitadas ou substituídas por eufemismo e perífrases.
b) Literatura afrodisíaca escatológica, em que palavrões e cenas de perversão são deliberadamente incluídos.
c) Pornografia de horror e/ou de science-fiction.
Há maior clientela para os dois primeiros, cujos livros são comprovadamente eficazes naquilo que se propõem a alcançar. Estudo feito numa universidade americana (Brown University) indicou que a quase totalidade das pessoas é estimulada por esse tipo de literatura, desde que não sejam excessivamente expostas a ela.
(Não há quem resista a sua tautologia).
Não pense, contudo, que esse estímulo seja necessariamente deletério. A pesquisa referida chegou a duas conclusões realmente importantes:
1) A leitura de livros pornográficos não leva a qualquer comportamento anti-social;
2) O mais importante estímulo erótico que uma pessoa pode sofrer é o contato com outros indivíduos.
“Os censores, oficiais e voluntários, deviam tomar conhecimento dessas pesquisas
a fim de não superestimarem a importância da literatura pornográfica.”
(Rubem Braga)

Quem precisar, ou quiser, satisfazer suas fantasias sexuais, onanisticamente ou de outra forma, não depende de literatura pornográfica para esse fim; nem das revistas de atualidades ou de modas que fornecem material sempre adequado principalmente para o público masculino – basta a própria imaginação.
A pornografia de horror ou de ficção científica, ao contrário das outras formas de literatura pornográfica, é praticamente anafrodisíaca. Nela, o sexo não tem glamour ou calor, ou mesmo lógica, ou sanidade. Dois exemplos: Juliette, do Marquês de Sade e Naked Lunch, do Wiliam Burroughs. São livros que causam terror, surpresa ou pasmo em vez de excitar gonadicamente.
Mary McCarthy considera Burroughs um magnífico escritor de science fiction e Mailer o coloca no mesmo plano de Swift, cuja literatura não está livre da ficção cientifica. A.H. Walton, que também acha que os livros de Sade estão mais próximos da ficção cientifica do que da história, aponta influências de Sade em Nietzsche, Kafka, Mirabeau, Chateaubriand, Trollope, Gent, Rechy, Ian Fleming, etc. Walton chama a atenção para o apontamento de 29 de janeiro de 1860 no Goucourt-Journals: “Passei a tarde na casa de Flaubert com Bouilhet, falando a respeito de Sade a quem Flaubert, como fascinado, constantemente se refere. ‘ele é a última palavra em catolicismo’, disse Flaubert. ‘Deixe-me explicar: ele é o espírito da inquisição, o espírito da tortura, o espírito da Igreja Medieval, o horror da natureza. Você que no Sade não há uma árvore ou uma animal?’” (O que não é verdade, como demonstra Walton, “Pois existem árvores onde Justine e outros personagens são amarrados para serem seviciados e pelo menos um cachorro, a quem é dada comida suspeita de estar envenenada”).
Tudo indica que a literatura pornográfica, qualquer que seja, tenha uma função terapêutica e, em certos e circunstância, educativa. Assim como
Aristóteles aconselhava aos atenienses que fossem assistir às tragédias no teatro, evitando dessa forma sucumbir a impulsos anti-sociais, para muitas pessoas a literatura pornográfica pode, ou talvez mesmo deva, ser indicada.
Referências à atração sexual, como as dos
Cânticos dos Cânticos, ainda são consideradas por muito como pornográficas.
Trinta anos atrás, no Brasil, livros como A Carne, de
Júlio Ribeiro, eram tidos como indecentes. O extremo moralismo da época, porém, não impedia que as senhoras brasileiras passassem de mão em mão o Amante de Lady Chatterley ou fizessem de Nana um Best seller, exatamente porque eram livros condenados como obscenos. A situação está mudando, mas com muita lentidão. Os livros de Harold Robins, por exemplo, tiveram sucesso de vendas por serem tidos como imorais, o mesmo acontecendo com livros de outro nível, como os de Henry Miller. Mas o fato de um livro tido como pornográfico tornar-se um Best seller não significa uma aproximação menos tabuística. Em matéria de literatura erótica ou pornográfica, as pessoas ainda podem ser divididas em quatro grandes categorias:
a) Os que gostam de ler livros pornográficos ou supostamente pornográficos, mas o fazem com consciência pesada. O livro não é colocado na estante, e som escondido em gavetas ou baús secretos.
b) Os que aceitam erotismo ou “pornografia” em toda parte (como
Katherine Ann Porter, para citar um exemplo ilustre) no cinema, no teatro, na sua vida privada, MAS NÃO NA LITERATURA.
c) Os que acreditam, como
Horácio, que a literatura deve ser Dulce ET utile e, por isso, se opõem à literatura erótica, pornográfica ou qualquer outra que vá além do entretenimento moralizante.
d) Os que repelem a literatura pornográfica com asco e medo.
A força dos censores, oficiais e voluntários, todavia, está diminuindo (em termos gerais, universais). É bem verdade que na literatura é onde ela talvez se faça sentir mais, principalmente a censura voluntária, feita pela união de defensores da decência com aqueles que acham que a literatura deve ter uma função moralizante ou então, no mínimo, entreter saudavelmente.

IV – O TABU DO PALAVRÃO IMPRESSO
O tabu contra o palavrão impresso continua existindo. Cinema e teatro já usam, e às vezes abusam, do palavrão, sem que os espectadores (e cada vez mais os censores) disputem o direito do autor de utilizá-los. O cinema, um veículo relativamente novo, e com um passado dos mais puritanos, ainda que curto, cada vez mais tem maior permissão, não falo dos censores oficiais, mas do público oficial, para tratar sem rebuços de temas proibidos. A maioria dos espectadores “autoriza” a inclusão de nomes “obscenos” desde que eles tenham uma raison d’être. Por outro lado, muitos espectadores em Berlim, Roma Paris, Nova Iorque, Rio de Janeiro se deliciam em ouvir as palavras putana, merde, whore, corno, etc. ditas nas telas em filmes sérios ou chanchadas eróticas e, no entanto, repelem-nas em
pt.wikiquote.org/wiki/Philip_Roth ou Campos de Carvalho. Apreciam ver comedia ou dramas cheios de palavrões e cenas eróticas, e, no entanto, ficam chocados quando lêem o Trópico de Câncer. A maioria das pessoas continua levando susto ao ver um nome feio num livro sério, enquanto se diverte em ouvi-lo na tela ou no palco…
Talvez isso resulte do fato de que o palavrão sempre teve curso oral permitido, anedotário, como expletivo nas narrativas de cunho dramático, como exorcismo, fetichismo e afrodisíacos retóricos, etc.
Além disso, no cinema e no teatro o tabu é enfrentado em conjunto com, as pessoas se apoiando mutuamente, dando “comunidade” e respeitabilidade ao respectivo comportamento individual. Mais ainda: “a palavra escrita, a civilização, na forma em que ela existe hoje no mundo, não poderia ser mantida”, diz Collin Cherry, que chama os tempos atuais de Age of Paper, a Idade do Papel. Podemos calcular que cerca de 80% da força de trabalho, em uma cidade moderna, se ocupa escrevendo, transcrevendo, datilografando, compondo, imprimindo, catalogando, arquivando palavras.
V – EM BUSCA DE UMA NOVA PORNOGRAFIA
Apesar de tudo, o repertorio de nomes em situações proibidas está se reduzindo cada vez mais. (pobre Rubem Fonseca, neste ponto ele errou feio).
Tudo indica que dentro de algum tempo, como que comprovando os receios de Katherine Ann Porter, de tanto ser abusada, (êpa! êpa!) distorcida, transformada em lugar comum, a linguagem pornográfica acabara de ser “o lado avesso da nobre linguagem da religião e do amor”, (outro equívoco, ninguém é perfeito, mas ele tem crédito), e nada restará da maneira de expressar “o fausto da obscenidade (se ele visse o funk, oba! oba! Ele mudaria o conceito de obsceno), que para uma enorme maioria de pessoas “é metade do prazer do ato sexual”.
A literatura, o cinema, o teatro, a comunicação de massa estão modificando os conceitos de pornografia e obscenidades. Os modernos escritores, que se recusam a excomungar o corpo, acham necessário, como queria
Huxley, que a literatura “tome conhecimento da fisiologia e investigue a mente e o corpo” os escritores serão acompanhados pelos outros artistas. E com isso, destruindo o grande tabu ligado ao funcionamento do corpo humano, estaremos todos abrindo caminho para uma Nova Pornografia?
A velha pornografia está ligada aos órgãos de excreção e reprodução, isto é, está ligada à Vida, às funções que caracterizam a resistência à Morte: alimentação e amor, e seus exercícios e resultados – excremento, cópula, esperma, gravidez, parto crescimento.
Assim como a atual e evanescente Pornografia da Vida, a sua substituta será a Pornografia da Morte.
Geoffrey Gorer, há quinze anos passados (isso em 1969) num artigo da maior importância, chamou a atenção para o fato de que, à medida que a cópula se torna mais mencionável, a morte, como um processo natural, se torna cada vez mais não-mencionável. Os processos naturais de decadência e corrupção tornam-se progressivamente mais nojentos, como a cópula e os excrementos anteriormente. Iniciando-se lentamente nas concentrações urbanas mais concentradas (viva ao pleonasmo!) a prevalência da Nova Pornografia acabará se tornando universal. Mas a morte pornográfica será a morte na cama, a morte da decadência física, da deteriorização da carne, da corrupção dos órgãos, da decomposição das artérias, da podridão do sangue. Essa é que é a morte escondida, secreta, abjeta, objecionável, obscena. A morte violenta, nas guerras e revoluções, nos desastres, nos crimes, nas catástrofes, nos acidentes automobilísticos, etc. tem uma parte cada vez maior nas fantasias oferecidas às massas pelo cinema, histórias em quadrinhos, ficção científica, televisão, etc.
O desprezo pela velhice, cuja intensidade cresce à medida que aumenta a veneração pela juventude, reflete o horror à decadência física dos dias atuais, que tende a se exacerbar no futuro.
Até quando os que acreditam numa vida extrafísica manterão suas crenças e, portanto, o seu conformismo em aceitar a doença e a velhice? (êpa! qual é? Sou católico, mas nem por isso aceito esse papo de doença e a morte com conformismo! Ara vá com esse papo furado de conformismo lá pra p.q.p!) grandes mudanças éticas, teológicas e fisiológicas podem ser previstas. Enquanto isso, ainda sem coragem de confrontar a realidade imediata, o homem fabrica a sua Nova Pornografia.
PERSONALIDADE QUE "BEATIFICOU" O USO PALAVRÃO





















Dercy, in memorian

Finalmente Fim!

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