17 de abr de 2008

Terapia em grupo

Por: Bruno Figueiredo


O sol começa a injetar os primeiros fechos de luz, de uma terça-feira amena, e ela ferve num fluxo de braços e pernas em busca de saúde, gente que preza pelo bem estar e por uma vida “zen”. Não, não se trata da mais nova academia de Belém e sim da Praça Batista Campos que com mais de cem anos de história possui uma “clientela” diversificada.


A Praça Batista Campos outrora a pérola do Intendente Antônio Lemos, fruto de uma época de idéias modernizadoras e palco para desfile da elite da “Bela época” atualmente é cenário de confluência de diversidade social. Por lá “desfilam” desde os mendigos, os comerciantes até turistas que aproveitam a estadia na cidade para contemplar a beleza da praça.


O agente prisional, Antônio Andrade, freqüenta a praça a mais de 20 anos e segundo ele andar pelas calçadas da Batista Campos tornou-se uma verdadeira terapia, para ele os bancos, os coretos e a arborização configuram-se em um local de revitalização espiritual. O que ele não sabe é que a urbanização da Praça deu-se pelo de 1874 pelas mãos do então Intendente (Prefeito) de Belém Antônio Lemos e que os coretos, arborização e calçada importada encontrava-se em um projeto de modernização e higienização da capital paraense.


Um observador atento verá grupos de pessoas praticando e buscando o equilíbrio entre a mente e o corpo o que não prediz em uma interação propriamente dita o que se vê na praça são solitários em meio a uma multidão, pessoas que fazem um “corpo” desconectado.
A união dessas pessoas consiste em querer (mesmo que de forma macro-social), a realização de conceitos pregados pela sociedade, como valorização do corpo, e exibição de um rejuvenescimento seja ele mental ou mesmo fisicamente.


Uma prova é o comerciante, Dinho, ele que começou vendendo sacola na praça acabou por criar laços profundos. Para ele Batista Campos é personificação de uma vida sem sobressaltos, local ideal para fazer amizades. Com a voz embargada ao falar da Praça como se fosse uma pessoa, ele diz que “ela é minha vida, vivo aqui e pretendo passar meus últimos dias vivenciando isso”


Higienização


O que o comerciante não desconfia é que a beleza e limpeza foram programas de construção de uma nova “Paris” em meio a Amazônia perpetrados pelo “velho Lemos” e que consistia em desodorizar a cidade tornando-a um local aprazível para quem viesse negociar ou curtir os dividendos da época da borracha. Projeto que deu inicio a uma política de saúde e estética da cidade, cuja finalidade era manter a cidade limpa, desodorizada e em ordem.


Criou-se então o Departamento Sanitário Municipal que dividiu Belém em quatro Distritos Sanitaristas. A polícia municipal desenvolvia um papel de destaque interferindo ativamente na dos belenenses, para isto a intendência promulgou novas Leis e códigos de posturas municipais que davam aos agentes municipais a legalidade de entrar em ambientes particulares e públicos.


Hoje quem fica responsável pelo saneamento é a Companhia de Saneamento do Pará (COSANPA), logicamente sem os poderes e atributos que a guarda municipal de Antônio Lemos possuía, já zelar e fiscalizar pelas áreas verdes é incumbência da Secretária de Municipal e do Meio Ambiente (SEMMA), quem atua também em Batista Campos é a Associação dos Amigos da Praça Batista Campos (AAPBC), fundada por Egydio Salles.


Renan, Jardineiro, da SEMMA, que trabalha na praça nunca ouviu falar de Antônio Lemos tão pouco da Belle Époque, mas mesmo sem saber do projeto de Lemos ele desempenha as ordens do Intendente, para Renan o que importa é manter a cidade limpa e organizada. Pelo visto as idéias do líder da borracha sobreviveram ao tempo.