16 de mar de 2008

SAMBA – DESTACANDO SUA HISTÓRIA, AS ESCOLAS DE SAMBA E ALGUNS PERSONAGENS

O Estado-Novo, o Samba, e a saga dos Malandros e dos Otários.


Por: Bruno Figueiredo

O golpe de 1937 as vésperas das eleições presidenciais deu início a uma época de opressão e perseguição a setores culturais que divergiam do modelo social imposto pelo Estado o que inclui “o jeito brasileiro” de cantar e obviamente o samba foi alvo de enquadramento.

Havia um interesse de se propagar à ideologia estatal por meios populares e desta forma atrair as mentes e os corações dos brasileiros era um dos objetivos do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Entretanto as vozes destoantes não foram silenciadas sejam em forma de samba-protesto ou de “samba - mascarados” que utilizam cartilha varguistas de apologia ao trabalho, mas sempre encontrando recursos verbais e musicais para contradizer e desmoralizar o apelo ao trabalhador.

Um dos expoentes musicais, símbolo do malandro carioca, Wilson Batista, expôs toda “ginga” e boemia da noite carioca, utilizando versos sarcásticos como, por exemplo: “Cheguei cansado do trabalho/Logo a vizinha me falou: / Oh! Seu Oscar, tá fazendo meia hora/ Que tua mulher foi-se embora/E um bilhete deixou/ O bilhete assim dizia: /Não posso mais/ Eu quero é viver na orgia!” Demonstra todo o drama e fracasso do trabalhador longe do mundo perfeito ditado por Getúlio Vargas por meio das ondas do Rádio.

Diploma de Otário

Com o arrefecimento da ditadura muitos compositores foram “domados” ou, como se dizia na época, “enquadrados”, “apelo à vadiagem, a orgia e devassidão”, como afirmavam os defensores do regime, era questão de polícia, ou xilindró como diziam os malandros.

Para fugir de uma “chave-de-cadeia” era necessário adaptar o repertório, ou seja, era preciso, tirar um diploma de otário, adequar à linguagem, excluir de preferência as gírias e enaltecer as maravilhas brasileiras e as qualidades do Estado.

Malandragem Fluminense

Mesmo com a censura “cortando” ou mesmo proibindo musicas ou expressões culturais anti-getulistas houve que se dispôs reclamar explicitamente seu descontentamento com a situação vigente.

Como é o caso do samba “Tenha pena de mim” (de Babaú e Ciro de Souza), com Aracy de Almeida e que traz as lamurias do trabalhador nos seguintes versos: “Ai, ai, meu Deus/ tenha pena de mim! / Todos vivem muito bem/ Só eu que vivo assim/ Trabalho, não tenho nada/ não saio do miserê/ Ai, ai, meu Deus/ isso é pra lá de sofrer”. Ou ainda no samba “Vida apertada” com os versos: “Meu Deus, que vida apertada/ trabalho, não tenho nada/ vivo num martírio sem igual/ A vida não tem encanto/ para quem padece tanto/ Desse jeito eu acabo mal” / “Ser pobre não é defeito/ mas é infelicidade/ Nem sequer tenho direito/ de gozar a mocidade/ Saio tarde do trabalho/ chego em casa semimorto/ pois enfrento uma estiva/ todo dia lá no 2/ no cais do porto/ (breque: tadinho de mim)”.

O que se observa segundo o escritor e professor da Universidade de Uberlândia/MG Adalberto Paranhos é que mesmo com todo o esforço de se criar uma identidade brasileira focada no ideal do trabalho e na manifestação patriótica o DIP, não conseguiu calar a voz e irreverência carioca a inteligência, sutileza e por que não o requinte do samba se sobrepôs às ordens do “pai dos pobres”. E mais Paranhos afirma que:

“Embora os compositores tivessem a obrigação de encaminhar suas obras aos censores do DIP (os selos dos discos estampavam, em regra, o número de registro junto a esse órgão), não foram poucas as gravações que extrapolaram os limites admitidos. Sem desconhecer a adesão espontânea, forçada ou interessada de muitos compositores populares à cantilena do regime, o que se observa em dezenas de registros fonográficos, é que, apesar dos pesares estado-novistas, o coro dos diferentes jamais deixou de se expressar, de modo mais ou menos sutil, conforme as circunstâncias.”

(A HISTORIOGRAFIA E O “SAMBA DE UMA NOTA SÓ” DO “ESTADO NOVO”).
(Professor Doutor Adalberto Paranhos, Departamento de Ciências Sociais – UFU).

Quem saiu ganhando neste embate? Logicamente que foi a cultura brasileira, surgiram novas ramificações do samba (samba-rock, samba-jazz, samba de raiz, samba-funk etc.), do falar e de formas diferentes de mostrar as alegrias e dissabores de se viver num país como esse.

Escolas de samba: origem e evolução.


Por: Héden Franco

Entre seus diversos adjetivos que tornam o Brasil conhecido mundialmente, um é muito fácil de destacar, com um ritmo envolvente e com data cerca para acontecer, o carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo ocupam, atualmente, uma posição de destaque na cultura brasileira. Mas para chegar a esse estágio de modernidade, organização e porque não, um mundo de cifras milionárias, essas escolas de samba tiveram que passar por muitos desafios e vencer muitos obstáculos para reunir diversas classes sociais em uma só.

Se tem um fator que é de fundamental importância para as Escolas de Samba, esse fator é o samba. Estilo musical, que no inicio da década de 30 com a chamada Era Vargas, era marginalizado ou considerado como coisa de malandro, mas que teve uma popularização rápida. Naquele período tiveram cantores importantes com destaque para Noel Rosa e Wilson Batista que travavam um batalha a parte, no que diz à respeito das letras do samba em relação ao cotidiano do Estado Novo, enquanto Noel Rosa inicialmente exaltava a política de Vargas, Wilson Batista explorava as deficiências da política trabalhista de Vargas.

Nesse contexto, o samba foi surgindo e evoluindo com as famosas rodas de samba nos morros da cidade do Rio de Janeiro como no bairro de Estácio. Na sua fase inicial, praticamente não existiam escolas de samba, ao invés disso, tínhamos os famosos blocos carnavalescos como o Bloco Deixa Falar que foi fundado por Ismael Silva e Bide no dia 12 de agosto de 1928 no Largo do Estácio. O local dos encontros para as batucadas e ensaios ficava perto de uma escola de formação de professores, a Escola Normal, reza a lenda que foi por essa coincidência geográfica que o termo Escola de Samba ganhou força.

É impossível falarmos em samba, sem falar na Praça das Onze, localizada no Rio de Janeiro e que servia de reduto para diversos compositores, ex-escravos moradores de morros perto do centro da cidade, as famosas tias baianas que até hoje são lembradas pelas Escolas de Samba com a ala das baianas. A Praça das Onze foi palco dos primeiros desfiles das escolas de samba.
E entre as famosas tias baianas, podemos destacar a Tia Ciata, onde em sua residência se reuniam os compositores e os “malandros”, com o passar do tempo tornou-se “obrigatório” passar pela frente da casa da Tia Ciata.

Os instrumentos de percussão utilizados naquele período eram bastante simples, a maioria era descendente de origem africana usados nos rituais religiosos, além dos instrumentos improvisados como o adufe (espécie de pandeiro), o omele (espécie de surdo em tamanho menor), frigideira de ferro, faca no prato, entre outros, que são considerados os embriões das gigantescas baterias de hoje.

Analisando as letras que eram apresentadas pelas escolas, inicialmente elas apenas apresentavam refrão e todo o resto era improvisado. Ma através de Bide, um dos responsáveis pela fundação do Bloco Deixa Falar, o samba passou a ter uma letra que não ficava apenas resumida ao refrão, ou seja, passou a ter a segunda parte composta. Graças a Bide, o samba sofreu grandes transformações e se consolidou em um estilo musical forte e independente. O Deixa falar de Bide, tornou-se em 1928 na primeira Escola de Samba do Rio, a Estácio de Sá.

Desfilando como Escolas de Samba

Em um primeiro momento, os desfiles eram marcados por uma grande desorganização principalmente no que diz a respeito de tempo, os desfiles começam em um dia e terminava só por volta de uma hora da tarde do dia seguinte. Nesse processo, muitos componentes das escolas de samba sofriam com o cansaço por ficarem muito tempo na espera, na alas das baianas, muitos desmaiavam por causa do calor. Mesmo assim, o sucesso foi muito grande e o jornal “Mundo Esportivo” resolve organizar o primeiro torneio com as escolas que tinha como cenário a famosa Praça das onze.

Nesse processo de “regulamentação” dos desfiles, entre as regras criadas, existia uma que exigia que os temas de enredo contassem a história do Brasil. Naquele tempo, muito dos compositores se quer tinham freqüentado os bancos da escola, então eles elaboravam letras com muitos equívocos, ou seja, um verdadeiro samba do crioulo doido.

Durante as décadas de 30, 40 e 60, esses desfiles foram atraindo cada vez mais pessoas e por esse motivo, as escolas passaram a desfilar na Avenida Presidente Vargas, que foi motivo de tristeza para muitos sambistas, uma vez que, perdiam o seu grande símbolo. Mas as escolas, mesmo saindo da tradicional Praça das Onze, continuaram crescendo e cada vez mais se organizavam com a formação de barracões e aumentavam o número de participantes, além da multiplicação das Escolas de Samba. Nesse período surge uma das mais tradicionais escolas do carnaval do Rio de Janeiro, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela que era oriunda do Bloco “Vai como pode”, a Portela chega a faturar o carnaval carioca por sete vezes seguida e disputava com a Mangueira, a popularidade na época.

Com um crescimento considerável, a própria Avenida Presidente Vargas já começa a ser um problema, pois para o desfile carnavalesco eram montadas arquibancadas de ferro. A montagem e desmontagem dessas arquibancadas tornavam a centro da cidade um verdadeiro caos. Para isso, na década de 80 no governo de Leonel Brizola, decide-se criar a casa definitiva do samba carioca, com a contratação do arquiteto Oscar Niemeyer, foi construído o sambódromo com grandes arquibancadas que foram construídas em apenas quatro meses.

A partir daí, o processo dos desfiles tornou-se mais organizado profissionalmente e nesse sentido criou-se a Liga Independente das Escolas de Samba que passou a organizar todo o rio de dinheiro que circulava no carnaval carioca. A liga passou a cobrar das televisões pela transmissão dos desfiles e passou a receber uma porcentagem da renda dos ingressos. Enfim, nasce o carnaval do novo milênio que além de ser um dos destaques turísticos do Rio de Janeiro, torna-se um dos maiores símbolos da Cultura Brasileira, isso sem esquecer que o combustível para que tudo isso pudesse acontecer é o samba.

O samba e a ditadura militar

Por: Luiz Guilherme

Durante a ditadura militar no Brasil, iniciada com um golpe de estado que depôs o presidente João Goulart em 1964, o país mergulhou numa fase obscura em todos os sentidos, onde a censura imposta pelos militares a todos aqueles que eram considerados subversivos a nação, alcançou os níveis mais extremos de violência e tortura que um país pode sofrer. Em todos os segmentos da sociedade havia perseguição política, e no movimento musical não foi diferente. Artistas de vários gêneros musicais foram presos, torturados ou exilados como forma de conter suas idéias e críticas que rebatiam qualquer forma de repressão.

O Brasil, que é conhecido no mundo inteiro pelo tradicional samba, assistiu calado, vários de seus nomes tentarem criar métodos para driblar a censura e colocar suas músicas nas rádios do país. Alguns tinham êxito em suas tentativas, outros conseguiam por pouco tempo até serem descobertos, e havia aqueles que preferiam não misturar suas músicas com os problemas que o país vivia. Entre os que não se diante das leis da ditadura e criavam formas para criticar o sistema através da música, podemos citar o cantor e compositor Carioca criado em São Paulo, Chico Buarque.

Desde muito cedo acostumado a conviver no meio musical, Chico Buarque é um músico fascinado pelos e sambistas das décadas de 30, 40 e 50, que o influenciaram bastante. Considerado um dos grandes nomes da música popular brasileira, compôs vários sambas que faziam alusão aos grandes cantores do passado, onde a mulher era considerada a dona-de-casa sempre disposta a fazer as vontades do marido que quase sempre bebia.

Ao entrar nos anos de chumbo, Chico se viu numa situação totalmente contrária de seus ideais de país livre e foi obrigado a descobrir uma maneira de burlar a censura, que reprimia qualquer ato subversivo, para poder criticar o governo militar através de sua música, maneira que foi encontrada por vários outros músicos. Nesta época o cantor passa pela sua melhor fase de produção na carreira.

Durante este período, Chico Buarque compõe sambas que entraram para a história da música, por conseguir passar pela censura e provocar idéias na população contrária a ditadura. Nesta época, o cantor acaba sendo preso e mandado para exílio em Roma, o que não afetou sua criatividade. Dentre os inúmeros sambas podemos destacar: Vai passar, Apesar de Você, Meu caro Amigo, Samba de Orly entre outros.. Esta última foi composta durante o exílio em parceria com Toquinho e Vinicius de Moraes.

Outro ponto interessante do período para o samba, foi o surgimento de uma das maiores intérpretes da música popular brasileira, a cantora Clara Nunes.

Com o país mergulhado em uma onda de revoltas que quase sempre terminavam nos porões da ditadura, Clara Nunes surge no cenário do samba interpretando grandes compositores como Ataulfo Alves e Dorival Caymmi. No decorrer de sua carreira, a cantora não teve muitos problemas com os militares ao ponto de sofrer maiores perseguições por um grande motivo: Na maioria de suas canções, os compositores eram de outras épocas que pouco participaram ou tiveram suas fases áureas durante a revolução militar.

Diante de uma situação favorável, a cantora revolucionou o mercado por ser mulher e mergulhar num mundo quase que exclusivo dos homens. A partir do seu sucesso, várias gravadoras passaram a investir em outras cantoras de samba, como Alcione, Beth carvalho entre outras. Seus poucos trabalhos que tocavam no assunto ditadura, eram mais voltados para a exaltação do povo e sua fé com o futuro. Clara Nunes ficou famosa também por conta de seu ecletismo no repertório, onde dava importância a versatilidade de intérprete e variava bastante pelas culturas Afro-Brasileiras como Umbanda e Candomblé, deixando músicas bastante conhecidas do tipo, como Filhos de Gandhi, A Deusa do Orixá e Guerreira.

CANTORES DA ÉPOCA

Por: Paulo César

Paulinho da Viola

Paulo César de Farias, o Paulinho da Viola é um dos grandes nomes da música popular brasileira de todos os tempos. Filho de Cesar Farias, músico do grupo de choro Época de Ouro, já traz o gosto pela música do berço presenciando durante sua infância rodas músicos da primeira linha da MPB. Paulinho consegue ao mesmo tempo ser um excelente instrumentista, um compositor genial e um sensível poeta.

Uma característica marcante de Paulinho da Viola é sua capacidade de ser inovador e tradicional ao mesmo tempo. Seus sambas e choros trazem inovações melódicas e harmônicas, sempre desenvolvendo e modernizando e evitando que estes gêneros fiquem congelados no tempo.Paulinho tem por costume gravar em seus discos músicas de nomes às vezes esquecidos do samba como Silas de Oliveira e Wilson Batista, assim como de novos compositores. Seu convite para que o grupo Época de Ouro participasse de seu show Sarau na década de 70, transformou o Choro novamente em mania nacional. Chegaram a acontecer até festivais na televisão. Sempre tomou iniciativas para resgatar o melhor da música brasileira, desde fundar um escola de samba não competitiva a hoje em dia promover shows de Choro em uma casa noturna do Rio de Janeiro.

Sua música fala do dia a dia das pessoas com uma poesia toda especial. Gravou músicas falando de ecologia antes do assunto virar moda. Teve várias outras censuradas durante a ditadura militar. Um dos poucos artistas que fazem uma elegia da negritude brasileira. Compôs sambas como "Foi um Rio que Passou em minha Vida" e "Sei Lá, Mangueira" que viraram hinos de escolas de Samba. Paulinho da Viola é um artista único, indubitavelmente um dos maiores nomes da história da MPB. Sua elegância se deve não apenas por seu extraordinário talento e sofisticação musical, como também por sua postura e caráter.

Bezerra da Silva

Foi um cantor, compositor e violonista brasileiro, considerado o embaixador dos morros e favelas. Cantou sobre os problemas sociais encontrados dentro das comunidades, se apresentando no limite da marginalidade e da indústria musical.
Temas de músicas

Seus principais temas foram os problemas sociais dentro das comunidades, entre eles: a
malandragem e ladrões à margem da lei, a maconha, e outras linguagens. É considerado um dos principais expoentes do samba do estilo partido alto.

História


Nordestino, desde sua infância foi ligado à música e sempre "sentiu" que apresentava o dom de tocar, causando atritos com a família.No Rio de Janeiro o musico foi morar sozinho, no Morro do Cantagalo, trabalhando como pintor na construção civil. Juntamente, era instrumentista de percussão e logo entrou em um bloco carnavalesco, onde um dos componentes o levou para a Rádio Clube do Brasil, em 1950.

O repertório de seus discos passou a ser abastecido por autores anônimos (alguns usando codinomes para preservar a clandestinidade) e Bezerra notabilizou-se por um estilo
Sambandido (ou Gangsta Samba), precursor mesmo do Gangsta Rap norte-americano. Antes do Hip Hop brasileiro, ele passou a transmitir do outro lado da trincheira da guerra civil não declarada.