23 de out de 2007

Círio de Nazaré, uma visão pelo viéis da semiótica.

Por: Bruno Figueiredo

O Círio de Nazaré, evento religioso realizado na região metropolitana de Belém, possui um alto grau de sentimento emanado pelos romeiros, ou seja, possui segundo os estudos de Charles Sanders Peirce um alto teor de primeiridade. É sem dúvida a experiência e o compartilhamento de sensações coletivo e que ficam exemplificados nas inúmeras demonstrações de fé.
A busca incessante de se obter uma graça seja ela material ou não move milhões de pessoas a agirem, em alguns instantes, de forma homogênea como, por exemplo, a levantarem em um só instante suas mãos, entoarem hinos etc. Isto basea-se no estudo “semioticista” de Peirce.
E a secundidade onde ficaria? Ficaria na figura do comerciante este detentor de uma “binariedade” ele estaria ali somente por força do lucro? Muitos sim entretanto não há como ser contagiado por sentimentos positivos. E esta “luta” interior leva a imagens insólitas como a do homem que levanta sua carteira de trabalho pedindo ajuda divina.
A terceiridade é algo difícil para se encontrar entre católicos em relação ao Círio, por um motivo bem simples, a devoção do católico à virgem santa ofusca uma reflexão próxima da imparcialidade, como duvidar de algo interiorizado?
Em relação ao jornalismo local este fica refém da cobertura “tradicional” que é à saída da santa da igreja da Sé até a Basílica; a trasladação, o auto do círio e mais as outras noves romarias que fazem parte Círio ficam restritas a matérias gravadas, flash, ou um outro depoimentos isolados. Talvez as imagens se repitam com personagens diferentes devido à comodidade de uns e a incompetência de outros comunicadores.
Realmente a mídia paraense ainda necessita de uma carga de primeiridade, pois não há como noticiar, acompanhar de forma digna um evento como este se o jornalista não sentir o objeto estudado e não se trata de se querer converter todos ao catolicismo e sim procurar as raízes sociais destes milhões que saem as ruas
O Círio com toda esta magnitude proporciona atos de solidariedades, paralisa uma cidade, e mais transcorre sem maiores tumultos gerando indubitavelmente empregos mesmo que temporários atraindo turistas e o enfoque da mídia nacional e internacional e deveria servir de mote para evidenciar nossas mazelas é por que ninguém explica o desaparecimento dos moradores de ruas nesta época? A imagem mais marcante para mim foi a de uma garota que se vestiu de santa e ficou imóvel durante toda a peregrinação da santa, foi espetacular sem dúvida. Este ato mostrou todo o apego desta pessoa a sua mãe divina e mais superou suas limitações físicas (realmente ficar imóvel e ainda em pé durante horas é para poucos), rapidamente formou-se um aglomerado de pessoas admiradas, mulheres chorando, aplausos, ajoelhamentos, saudações, difícil ficar indiferente a isto.
Ainda não tive a oportunidade de entrevistar esta garota e seus pais, mas tenho certeza que se trata de uma graça alcançada, ninguém faz isto à toa. Como paraense belenense e por cima católico não sou a pessoa mais imparcial neste momento, pois antes de ser jornalista sou um homem com toda sua carga de virtude, defeitos e crenças. E quem não é? Para sintetizar o povo paraense empresto, com algumas modificações, as palavras de José Lins do Rego: “sou um homem de paixões violentas, devoto de Nossa Senhora de Nazaré, amigo de meus amigos, mas se me pisam em meus calos perco a cabeça e então fico ridículo, não sou mau pagador, se tenho pago, mas se não tenho não pago e não perco o sono por isto, sou um homem como os outros e que Deus permita que assim continue.”